Finalmente, tinha chegado o dia de fazermos aquilo que nos tinha trazido ao leste de Java, caminhar no vulcão Krakatoa , palco de uma das erupções mais poderosas e mortíferas da História.
CONTEÚDOS DO ARTIGO
A 27 de Agosto de 1883, o até então adormecido Krakatoa libertou toda a sua fúria, numa erupção que foi ouvida a mais de 4500 km de distância, libertando quantidades imensas de cinza e criando um tsunami que devastaria as zonas costeiras de Sumatra e Java, matando mais de 30.000 pessoas. A ilha que era o vulcão mudou por completo a sua morfologia, desagregando-se e dando origem a três ilhas diferentes.
Mas a actividade vulcânica não se ficou por aí. Em 1927, surge uma nova ilha, no meio das três que tinham restado. Deu-se-lhe o nome de Anak Krakatau, o filho do Krakatoa. Esta ilha foi crescendo ao longo de quase um século, fruto da actividade vulcânica quase ininterrupta, atingindo 300 m de altura.
Mas em Dezembro do ano passado, o filho mostra querer seguir as passadas do pai, e nova grande erupção faz com que dois terços da ilha deslize para o mar, criando outro tsunami, desta vez matando cerca de 450 pessoas. A ilha passou a ter, no seu cume, pouco mais de 100 m de altura. Mas a actividade continua… É esta ilha que queremos visitar, se possível. As condições de segurança parecem permitir a abordagem à ilha, por isso vamos arriscar e visitar o filho do Krakatoa.
Depois de mais um pequeno-almoço de nasi goreng, dirigimo-nos ao porto de Carita, onde encontrámos o Ahmid, e esperámos pelos nossos companheiros de aventura. São três franceses que vivem na ilha da Reunião, uma ilha francesa conhecida pela seu vulcanismo activo, mas pelos vistos gostam tanto de vulcões que vieram para a Indonésia para ver mais!
O Krakatoa encontra-se a cerca de 65 km de distância da costa de Java, na realidade pertencendo já à jurisdição da ilha de Sumatra. A viagem é feita num barco que parece ter todas as condições de segurança e com dois motores a ré.
O mar está um pouco agitado, mas o barco vai avançando a um ritmo constante. A viagem demora cerca de hora e meia. Durante esse tempo, tentamos controlar as nossas expectativas. Como estará o vulcão? Será possível desembarcar e caminhar nele? Poderemos aproximar-nos da cratera?
As nossas questões começaram a ser respondidas quando começámos a avistar o Krakatoa “pai”. Esta ilha não mostra sinais de actividade desde 1883 (assim como as outras duas ilhas), e está coberta por uma densa vegetação tropical. Aliás, o cimo da ilha está coberta por uma neblina que até parece fumo… Mas não é! Um dos lados da ilha não engana as suas origens, sendo que as falésias abruptas indicam claramente que era parte de uma antiga cratera que colapsou parcialmente.
Em frente, outra das ilhas, chamada Long Island, é completamente diferente. Pouco alta, é basicamente só rocha, e a pouca vegetação que tem está queimada, dizem-nos pela erupção de Dezembro passado. Após contornarmos esta ilha, deparamos pela primeira vez com o Krakatoa filho. É uma visão de outro mundo. Parece um vislumbre do início da Terra, nos seus tempos geológicos mais conturbados. Do lado a que nos aproximamos, a ilha tem o formato de cone, e as encostas estão cobertas de “cicatrizes”, canais de escoamento de lava. Toda a ilha é pedra vulcânica e cinza.
Tudo parece estar calmo, por isso desembarcamos. Começamos a subir em direcção ao topo. O cheiro a enxofre enche o ar e a poeira cinzenta cobre-nos a roupa e a pele. Depois de uma breve caminhada, chegamos ao topo e temos uma visão espectacular sobre a cratera. Do outro lado, é como se a ilha tivesse desaparecido, e na realidade colapsou para o mar. No fundo um lago de lava fluida e cinzenta, creio que misturada também com água, está em efervescência. Os vapores são muitos à sua superfície. E, sob o nosso olhar atento e estupefacto, o filho de Krakatoa liberta a sua fúria e explode!
O material piroclástico, basicamente uma nuvem de pedra e cinzas, eleva-se no ar algumas dezenas de metros, e volta a cair sobre o lago. À altura que estamos, sentimo-nos em segurança, mas uma nuvem branca eleva-se ainda mais, criando um cogumelo que se vai dispersando.
Aproveitamos para tirar muitas fotos e para lançar o drone. Este terá a possibilidade de se aproximar mais do que aquilo que nós podemos e consegue uma perspectiva do alto sobre a cratera. Temos, no entanto, de garantir que o drone se mantém a uma distância de segurança da nuvem branca que periodicamente se eleva nos céus.
Extasiados e maravilhados com esta demonstração de força da natureza, é com relutância que descemos novamente para o barco.
Depois damos uma volta à ilha e temos uma outra perspectiva do lago, quase em contacto com a água do mar. Nesta zona, esta está cheia de terra em suspensão e terá um grau de acidificação muito acima do normal pela emissão de gases subterrâneos.
Dizemos adeus ao filho do Krakatoa e dirigimo-nos ao seu pai. É uma ilha muito bonita, com uma aura mística, com o cume envolto em neblina. Atracamos numa pequena praia, onde almoçamos. É uma pena, mas até aqui se fazem sentir os efeitos da poluição, e a linha até onde a maré avançou mostra algum plástico que veio dar à costa.
Depois de almoço ainda tivemos tempo de ir fazer snorkelling numa praia ali perto, para onde nos deslocamos no barco.
Os corais estão bastante danificados pela actividade vulcânica, mas a vida parece sempre ter um milagre como trunfo e mesmo ali se encontram corais ainda vivos e que albergam muitas outras espécies de vida submarina, como os peixes coloridos.
Estava na hora de voltar. Dissemos adeus ao Krakatoa, envolto em neblina, e dirigimo-nos de volta a Carita. Quando chegámos vínhamos completamente satisfeitos. Tínhamos estado mais perto da cratera do que tínhamos pensado (embora não pensássemos que a actividade fosse tão violenta), e tínhamos presenciado de perto a uma das forças mais poderosas do planeta Terra.
E é também por isto que viajamos. São estes momentos em que nos sentimos do tamanho de formigas, em que sentimos a nossa insignificância perante o poder da Mãe Natureza. Mas ao mesmo tempo, sentimos a responsabilidade de cuidar do nosso planeta, e garantir que as gerações futuras possam testemunhar os mesmos fenómenos maravilhosos que nós temos o privilégio de assistir.
Que o filho do Krakatoa seja gentil com a nação indonésia e com as suas gentes, mas que continue a maravilhar-nos com a demonstração que a Terra é algo que nos é brindado, e da qual devemos cuidar com muito carinho pois dela dependem as nossas vidas.
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Podem rever as nossas histórias desse dia aqui:
Este artigo foi realizado durante a nossa viagem de Volta ao Mundo em 2019/2020. DIA 21 – Visitar o KRAKATOA (Cracatoa), um dos vulcões mais destrutivos do mundo | Indonésia (Julho 2019)
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