A qualidade da noite passada esteve ao nível da qualidade do quarto onde estávamos alojados, ou seja, terrível. O único cobertor que tínhamos não era suficientemente comprido, largo e quente para nos livrar de uma noite muito mal dormida com o frio que se fazia sentir dentro do quarto. Mas, vendo pelo lado positivo, e uma vez que nos tínhamos de levantar às três da manhã para ver o nascer do sol no Monte Bromo, a noite foi também curta!
Também nos sentíamos ansiosos, pois sabíamos que estávamos junto a uma das paisagens vulcânicas mais espectaculares da Indonésia e do mundo. A aldeia de Cemoro Lawang está localizada no topo de uma falésia que constitui a parede de uma gigantesca antiga cratera vulcânica de forma circular, com vários quilómetros de diâmetro, o que se chama uma caldeira.
Onde se encontra Cemoro Lawang, a falésia tem cerca de 100 m de altura, mas à volta da caldeira as paredes têm várias centenas de metros de altura. No centro da caldeira, encontram-se as estrelas da companhia, em particular Monte Bromo, um dos vulcões mais activos da Indonésia, e, logo ao lado, Bartok, um vulcão adormecido.
Existe ainda uma série de outras crateras correspondentes a cones secundários antigos, como os Montes Widodaren e Watagan, que actualmente não mostram sinais de actividade vulcânica. A caldeira em si seria a cratera de um enorme vulcão. Esta paisagem é muito parecida, na sua morfologia e génese, com a da Ilha do Fogo, em Cabo Verde.
Saídos da cama, preparadas as mochilas pequenas com o material fotográfico, e vestida roupa quente, pusemo-nos ao caminho. O plano para o dia era ambicioso. Primeiro, ver o nascer do sol de um promontório de frente para o Monte Bromo, à partida na chamada King Kong Hill, a noroeste de Cemoro Lawang. Segundo, descer as falésias da caldeira e atravessar o fundo da caldeira. Terceiro, tentar subir ao Monte Bromo. Quarto, regressar a Cemoro Lawang. Completaríamos assim um trilho circular que esperávamos que fosse deslumbrante. E as nossas expectativas não foram goradas.
Como tínhamos muitos quilómetros pela frente, e ainda estávamos entorpecidos pelo frio da noite, resolvemos apanhar a boleia de duas motos até ao início da subida para King Kong Hill (a cerca de dois quilómetros de Cemoro Lawang). Nessa curta distância, a estrada era acidentada e os rapazes que conduziam as motas tentavam evitar as pedras maiores.
Quando chegámos a uma cancela, era tempo de começar a caminhar. A noite era cerrada e os nossos frontais eram as únicas luzes que iluminavam o caminho. Inicialmente, a estrada continuou por algumas centenas de metros, mas depois começou uma subida em escadaria. Passámos por alguns companheiros de caminhada, mas prosseguimos.
A escadaria vai dar a um miradouro chamado Seruni Point, mas a subida não acaba aí. A partir daí, não há mais escadas, e a subida processa-se a corta-mato, usando uma ravina que resultou do escoamento de água. Embora as escadas também puxassem pelas pernas e pelo batimento cardíaco, este troço é mais exigente do ponto de vista físico pois o terreno não é tão certo, e com o meu frontal a dar as últimas, basicamente ia-me seguindo pela luz do frontal da Carla que seguia à frente.
Finalmente chegados à King Kong Hill, começámos a deparar-nos com multidões. O nascer do sol no Monte Bromo parece ser mais uma actividade em alta popularidade. Mas o que aconteceu em Borobudur voltou a acontecer aqui. Quase toda a gente está lá só para o momento, e depois parte, rumo ao Monte Bromo, fazendo parte de uma tour organizada.
Estas tours têm a vantagem da organização e do facto do transporte facilitar a visita aos pontos de interesse logo nas primeiras horas da manhã. A desvantagem é que se fica com pouco tempo (pelo menos, na nossa perspectiva!) em cada local. A grande vantagem, claro, é que, uma vez que a estrada vai até aos miradouros pelo outro lado da caldeira, não tem que se percorrer quilómetros a pé!
Para se conseguir ver o nascer do sol de frente para o Monte Bromo, o segredo é conseguir encontrar um “spot” que seja nosso, sem ter dezenas de pessoas à volta. Não é fácil… Arranjámos um ponto da falésia um pouco mais acima do miradouro da King Kong Hill, mas abaixo do miradouro de Penanjakan, sem ninguém para nos perturbar a linha de visão, e esperámos. O frio fazia-se sentir, de tal forma que ansiávamos pelos primeiros raios de sol para aquecer um pouco.
Mas ainda antes dos raios de sol, a claridade no horizonte começou a revelar o esplendor da paisagem que tínhamos diante de nós. A magnificência e a dimensão da caldeira, e a beleza dos vulcões alinhados, com o Bartok e Bromo em destaque, com o Monte Semeru, majestoso no horizonte, formavam uma visão perfeita. É uma das paisagens mais espectaculares que já vimos.
Pouco depois do nascer do sol, as multidões começaram a dispersar e quando demos por ela estávamos sozinhos na montanha! Aproveitámos para lançar o drone e captar fotos e vídeos desta paisagem soberba. Mas suspeitamos que nenhuma foto ou vídeo consiga abarcar tudo aquilo que os nossos olhos viam e os nossos corações sentiam.
Por volta das oito da manhã resolvemos descer. Acompanhámos a estrada asfaltada num percurso muito bonito, com vegetação do tipo mediterrânico (pelo efeito da altitude), e com muita sombra fresquinha. As vistas para a caldeira e para o monte Bartok são fenomenais e parávamos constantemente para registar a perspectiva. Após duas horas de descida, chegámos ao chão da caldeira, cheia de areia e cinza vulcânica, de tal forma que e conhecida como o Mar de Areia.
Apesar dos constantes convites para boleias de moto, estávamos determinados a fazer o nosso percurso circular na totalidade a pé. Cruzámos o Mar de Areia e lembrou-nos alguns troços do Rally Mongol, a nossa aventura do ano passado. Felizmente a “hora de ponta” na caldeira já tinha passado e cruzámo-nos com poucos veículos e, por isso, também havia pouco pó no ar.
Chegados perto do Monte Bromo, parámos numas barraquinhas e comemos um almoço antecipado, pois andávamos a carburar quase sem combustível. Umas massinhas chinesas resolveram o problema. Nesta zona, formavam-se remoinhos de vento que levantavam grandes quantidades de poeira e davam um ar surreal à paisagem, algo digno de filmes tipo “Mad Max”.
Depois de almoço, fomos em direcção ao Monte Bromo, não sem antes passar pelo Templo Luhur Poten, um templo hindu que só abre em dias especiais do calendário hindu e que se encontrava fechado. Infelizmente, o acesso ao Monte Bromo também estava fechado, há pelo menos um mês, por razões de segurança.
A verdade é que se notava, de vez em quando, fumo a sair da cratera, mas de resto tudo parecia calmo. No entanto, não era possível subir à borda da cratera do Bromo. Restava-nos contemplar a beleza de um vulcão activo a partir da sua base.
Para se ter uma melhor perspectiva do interior da cratera do Monte Bromo, a única opção possível seria subir ao topo do Monte Bartok, mas isso deixaríamos para o dia seguinte.
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Estava na hora de cruzar novamente o Mar de Areia, desta vez em direcção a Cemoro Lawang. Protegemos a boca e o nariz da poeira que andava no ar e caminhámos até chegarmos à parede da caldeira. Faltava a subida final do dia! Que, dado o nosso cansaço, custou bastante. Mas, a subida era curta e rapidamente chegámos à aldeia, não sem antes passarmos por rapazes a cavalo, um meio de locomoção ainda muito usado por aqui.
Eram três da tarde, e tínhamos percorrido a pé um dos percursos mais bonitos que já fizemos. E totalmente sozinhos, pois aqui o trekking ainda não é popular para quem visita, e as autoridades indonésias também ainda não prepararam o terreno para quem quer conhecer a zona a pé. Mas a caldeira do Monte Bromo tem um potencial enorme para percursos pedestres.
Por nós, no dia seguinte, regressaríamos. Por hoje, estava na altura de mudar de quarto para a nossa homestay, com condições substancialmente melhores (um quarto com janelas e com água corrente e quente!), tomar um banho, e trabalhar no blogue. Isto de manter os relatos actualizados ao final do dia, quando se acorda às três da manhã para caminhar 12 horas, não é fácil!
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Este artigo foi realizado durante a nossa viagem de Volta ao Mundo em 2019/2020. Dia 29 – Trilhos no MONTE BROMO, desde o nascer do sol no King Kong Hill até à cratera| Java – Indonésia (Agosto 2019)

A nossa intenção era subir ao topo do vulcão Bartok e assistir a outro nascer do sol. O Bartok está no centro da caldeira, mesmo junto ao monte Bromo, e de lá, as perspectivas sobre a cratera activa são únicas. Mas o cansaço e a falta de horas de sono levaram-nos a que só nos levantássemos às cinco da manhã. Loucura…
Resolvemos poupar-nos um pouco e não fizemos a descida para a caldeira a pé. Apanhámos novamente boleia de moto, descemos até à caldeira e atravessámos o Mar de Areia até à base do vulcão Bartok. O dia começava a clarear quando começámos a subida. Os números não enganam: 289 m de desnível em apenas 1,4 km de distância, ou seja, cerca de 25% de inclinação média.
O terreno é também difícil. O chão é basicamente cinza vulcânica mais ou menos compactada. É difícil progredir quando o solo desliza por baixo dos nossos pés. No início a vertente não é assim tão inclinada, mas passado pouco tempo entramos numa crista que é muito inclinada e subimos a custo. A respiração é pesada, o ritmo cardíaco acelera, e é preciso fazer algumas pausas para recuperar o fôlego e tirar fotos.
Conforme subimos, o sol também se vai elevando no horizonte e lançando cores vibrantes nas vertentes do Bartok, mas também no Monte Bromo. Este vai-se revelando à medida que vamos subindo e vamos tendo uma perspectiva cada vez mais global da cratera.
Quando finalmente chegamos ao topo do vulcão Bartok, a visão da caldeira e do Monte Bromo é de outro mundo. Parece que estamos noutro planeta, que somos pioneiros na exploração espacial, que pisamos terrenos nunca antes desbravado ou observado por olhos humanos. É por momentos destes que vale a pena o esforço físico, o cansaço e todos os sacrifícios.
Lançamos o drone e conseguimos uma nova perspectiva da fabulosa paisagem que nos rodeia. Passado algum tempo, chegam algumas pessoas que também arranjaram energia para subir ao topo do vulcão Bartok. Chegam ofegantes e cheias de pó, como nós devemos ter chegado duas horas antes. Mas ficam pouco tempo, e rapidamente descem. Nós continuamos a tirar fotos e a fazer vídeo, enquanto nos deixamos encantar uma última vez pela beleza da natureza no seu estado primordial.
É tempo de descer. Resolvemos fazer o mesmo percurso para baixo. Temos de ter cuidado para não escorregar, ou fazer movimentos bruscos que possam magoar os joelhos. A protecção da boca e nariz é essencial pois a quantidade de pó que levantamos ao descer a vertente é brutal. Na descida, os braços são tão importantes como as pernas, e o bastão é uma ajuda preciosa para apoiar e minimizar o esforço dos joelhos.
Muito mais rapidamente do que subimos, estávamos novamente na base do vulcão Bartok. Dali, voltámos a pagar os serviços de duas motos que nos trouxeram de volta à aldeia de Cemoro Lewang. Eram cerca das dez da manhã, mas não tínhamos muito tepo a perder, pois queríamos ir para outra cidade, Malang, e os transportes que saíam de Cemoro Lawang eram poucos e sem hora certa. E, antes, ainda tínhamos de tomar banho e reorganizar as nossas mochilas.
Depois de pronto, dirigimo-nos ao local onde os autocarros partem em Cemoro Lawang. Lá, encontrámos um pequeno autocarro à espera de pessoas e quando nós chegámos, juntamente com mais três raparigas, a lotação ficou completa e pudemos sair logo. Que sorte! O autocarro ia até Probolinggo, onde iríamos arranjar outro autocarro com destino a cidade de Malang.
A viagem correu sem problemas, fazendo o percurso inverso que tínhamos feito dias antes. Pelo caminho ainda fomos conversando com um casal francês que, como nós, está a viajar pelo mundo durante um ano, mas com três filhos, dois rapazes e uma rapariga, com 8, 9 e 10 anos de idade! Isto é que é coragem…
Quando chegámos a Probolinggo, o autocarro parou junto a uma agência de venda de bilhetes de autocarro. Aproveitámos e comprámos logo um bilhete para um autocarro “Express” para Malang. Quando estava a chegar a hora, o autocarro que deveríamos apanhar apareceu, mas parou uma centena de metros mais à frente e partiu, sem termos tempo de lá chegar! Demo-nos conta que tínhamos sido enganados… A estação de autocarros era ali mesmo ao lado e tínhamos comprado os bilhetes num revendedor, a um preço mais alto. O senhor lá nos disse que outro autocarro viria, pouco tempo depois, por isso resolvemos esperar.
Passado vinte minutos, um dos senhores chamou por nós, levou-nos à estação de autocarros, do outro lado da estrada, e meteu-nos num autocarro com destino a Malang. Lá dentro, deram-nos um bilhete que era bastante mais barato. Erro de principiantes… No entanto, o importante é que o autocarro ia mesmo para Malang, e o termo “Expresso” aplicava-se porque enveredou pela auto-estrada em parte do percurso.
Chegados a Malang, ainda não tínhamos acabado a viagem… Estávamos num terminal de autocarros nos arredores da cidade e ainda precisávamos de chegar ao nosso hotel. Aí, conseguimos contornar quem nos queria meter num táxi, e descobrir a angkot que nos levaria ao centro. A viagem ainda durou quase uma hora, porque as angkot são lentas e param muitas vezes para apanhar clientes.
Finalmente, cerca das cinco da tarde, chegámos à rotunda principal de Malang, onde se encontra o antigo edifício administrativo colonial holandês, Balai Kota, e também o nosso hotel, RedDoorz near Balai Kota, da rede RedDoorz, uma cadeia de hotéis em Java de preço baixo mas de boa qualidade. Na realidade, não é bem uma cadeia, porque os hotéis são todos diferentes. É mais uma rede de hotéis unidos por um nome, mas que podem variar bastante em qualidade e estilo.
Este hotel é simples, mas tem um quarto espaçoso e está num local agradável, recuado do barulho do trânsito na rotunda. Aproveitámos o resto do dia para trabalhar no blogue e escrever sobre o nascer do sol no Monte Bromo e a subida ao topo do vulcão Bartok. Jantámos também no nosso hotel uns noodles fritos muito saborosos.
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Tínhamos chegado um dia antes do planeado a Malang para no dia seguinte podermos tratar da organização de uma tour ao Monte Semeru, o ponto mais alto de Java. Temos a opção de 2 ou 3 dias, mas depende do preço que conseguirmos arranjar e que companhia. Veremos o que conseguiremos arranjar.
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Este artigo foi realizado durante a nossa viagem de Volta ao Mundo em 2019/2020. Dia 30 – Subir ao VULCÃO BARTOK, e dizer adeus ao Monte Bromo | Java – Indonésia (Agosto 2019)
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