Ser Humano por natureza? Quando viajo encontro realidades tão distintas e, muitas vezes, tão distantes em termos culturais que me deixam cheia de dúvidas. Dúvidas sobre mim. Dúvidas sobre nós. Dúvidas sobre o que é ser Humano.
A primeira vez que fui à Índia corria o ano de 2007. Foi um choque! Um choque cultural mas muito mais do que isso. Chocou-me o barulho, o caos, as cores, os cheiros, as luzes, a religião, as vacas e as pessoas! Chocou-me tudo porque a Índia é assim. Verdade, até as pessoas. Mas os choques não são necessariamente negativos. E na Índia o choque foi muito positivo. É este choque que procuro nas minhas viagens.
As pessoas na Índia são a forma mais simples do que é ser Humano por natureza. Sempre que penso na Índia dou comigo a pensar nas pessoas, naquilo que me ensinam, na sua resiliência.
Um Humano por natureza é alguém que deixa a sua essência livre e procura as suas raízes culturais, valorizando-as e vivendo-as. É uma comunhão constante com a terra, com as gentes, com os outros, consigo próprios.
Há muito que nos esquecemos do que é ser Human by Nature. Há muito que nos esquecemos do que é ser Humano por Natureza. E porquê? Dou comigo a pensar nestas coisas quando viajo na Índia, seja no Bihar, no Himachal Pradesh ou em Querala. A Índia é feita de humanos por natureza. Gente que vive, sobrevive, sorri para a vida, abraça a vida e partilha-a com os outros.
O Ser Humano esquece-se frequentemente do que é ser Humano. Mas o que é ser Humano? O que é este humanismo que nos distingue dos demais seres vivos? Será a nossa consciência? Eu acredito que sim. Ser Humano por natureza é deixar que a nossa essência, acompanhada por consciência sobre os nossos actos e escolhas, seja dotada de bondade, compaixão e amor. Ser Humano é sobreviver e ao mesmo tempo viver com os outros, em comunidade, em partilha constante, com compaixão pelo outro Humano.
Em Querala, na Índia, senti isso bem próximo. Em dez anos, já estive três vezes na Índia, num total de cerca de seis meses. Uma das regiões onde passei mais tempo foi Querala. Da primeira vez em Cochim e nas Backwaters de Querala, na altura acompanhada pelo Rui, numa viagem de IndRail pelos comboios indianos. Na altura, para além do património arquitectónico colonial, herdado do passado histórico e presença portuguesa na região, impressionou-me a forma como as gentes lidavam com essa herança cultural.
A maioria dos povos do mundo rejeita o passado colonialista e lida mal com essa herança. Querala não. Os povos de Querala têm orgulho na sua história, como têm orgulho nos seus deuses e nas suas crenças. Ser Humano por natureza é isso. É compreender que somos o resultado da nossa história. Nós somos a soma das nossas experiências, umas melhores, outras piores.
Em 2017 voltei a Querala, desta vez para uma viagem de três semanas. Há muito que me queria embrenhar na cultural ancestral da Índia, em geral, e de Querala, em particular. O que me levou ali foi, definitivamente, a busca pela essência de um povo.
As respostas não são fáceis de encontrar e provavelmente nem existem. Querala sofre os mesmos desafios que todas as regiões da Índia e do mundo. As tradições milenares estão cada vez mais ameaçadas pela falta de interesse dos jovens mas a uma escala completamente diferente. A Índia é diferente. Querala é diferente.
Os tigres habitam os parques nacionais, agora longe dos olhares atentos e predadores dos caçadores. Mas bem perto da cultura de Querala. Os tigres chegam às cidades, invadem os campos e saltam em festivais temáticos, agora pintados nos corpos dos homens de Querala. Figuram nos roteiros turísticos da região, longe da caça furtiva, mas preservados por esta condição Humana. Como no Kaduva Kali ou Puli Kali, uma dança tradicional realizada durante o Onam, o Festival das Colheitas (geralmente em Agosto ou Setembro), em que a população se pinta de tigre e vem para as ruas gritar, cantar e dançar energicamente percorrendo várias casas.
A religião, uma das maiores manifestações culturais da Índia, está presente no seu dia-à-dia. Cristãos, muçulmanos e hindus vivem harmoniosamente em comunidade. São as heranças de um passado de tolerância. Muitas das cerimónias teatrais acontecem à noite, como o Tholpavakoothu, um teatro de marionetas de sombra. É um ritual religioso dedicado a Bhadrakali e é executado nos templos Devi, em teatros construídos especialmente para o efeito, e designados por koothumadams. Há mais de 800 anos que a família de Ramachandran Pulavar tem o dever de percorrer os templos Devi de Thrissur e representar este espectáculo. E porque saem todas as noites? Para agradecer aos Deuses. É isto. Isto é ser Humano por Natureza.
Porém, em Querala os Deuses não ficam apenas no teatro. Os Deuses saem à rua. É o caso de Theyyam, uma dança sagrada dedicada à deusa Kali, representada nas aldeias e templos de Kaavu.
Mas a religião tem uma das suas manifestações mais puras no Poohan e Thira, um ritual típico da região sul da Costa de Malabar. Poothan, o tenente de Shiva, e Thira, a deusa Kali, acompanhados por músicos com tambores, limpam os espíritos malignos da região.
Um pouco por toda a Índia recebem-se sorrisos. Mesmo quando estamos mais entediados, mais chateados, um indiano nos sorri. Mas em Querala todos nos sorriem. Em Querala distribuem-se sorrisos, acompanhados de olhos negros grandes que também sorriem, e um aceno de cabeça. Isto é ser Humano por natureza.
Ser Humano por natureza está em vias de extinção. Ser Humano enfrenta sérios desafios. O mundo contemporâneo desumaniza-nos, de dia para dia, transforma-nos em máquinas, ligados a impulsos consumistas e desprovidos de sorrisos, amor e compaixão. Precisamos de repor o Ser Humano que há em nós. Precisamos de voltar a ter dúvidas e procurar respostas na natureza, na cultura, na história e na religião. Ser Humano por Natureza é o brilho nos olhos destas crianças. Ser Humano por natureza não está extinto. Na Índia e em Querala está mais vivo do que nunca.
Este artigo foi escrito a convite do Turismo de Querala.
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Eduardo says:
Olá Rui e Carla. Em 2020 eu e minha esposa vamos à Índia pela primeira vez. Eu sou um apaixonado pela Ásia e já estive em diversos países, mas venho me preparando há anos para o “murro no estômago”. Logicamente tenho lido várias experiências de viajantes mas nenhuma tão intensa quanto as escritas por vocês. Vocês personificam a essência do que procuramos nas viagens: viver, mais que visitar; sentir, mais que ver. Nosso roteiro já mudou algumas vezes, e vocês são os responsáveis por isso… rsrs. Gostaria, sem possível, de algumas dicas.
– Quando viajam, vocês compram os bilhetes para trens e ônibus com antecedência ou é possível deixar para comprar na hora da viagem?
– Acham que em um roteiro de 20-25 dias é possível fazer Agra, Varanasi, Delhi, Rajastão e Querala… e Hampi…. ? Ok, acho que eu mesmo tenho a resposta.
– No Rajastão, já que não temos tanto tempo assim, quais cidades, vcs consideram imperdíveis? É possível passar uma noite no deserto? Tem alguma agência para indicar?
– Vocês utilizam guias ou resolvem tudo sozinhos? Se tiverem algum guia para indicar, também seria muito bom…
Prá finalizar: março/abril ou outubro/novembro?
Muito obrigado! E parabéns pela sensibilidade e pelos textos belíssimos!
PS: nunca vieram ao Brasil? Algum motivo especial? Fica aqui o convite para conhecer nossa belíssima cidade em uma belíssima região: Diamantina, estado de Minas Gerais.
Carla Mota says:
Olá Eduardo, nós compramos com antecedência, quando dá. Mas muitas vezes não dá mesmo. Raramente compramos na hora. Compramos logo quando chegamos numa cidade nova. Querala e Hampi fica longe de tudo o resto. Eu colocava aí um voo interno. Vai ter que correr um bocado mas dá. Deli não precisa de muito tempo, só o suficiente para entrar e sair do país. No Rajastão acho obrigatório Udaipur, Bundi, Jaipur, Jodhpur e Jaisalmer. É em Jaisalmer que você vai ao deserto. Três dias lá dá para ver a cidade e ir ao deserto. Agências não sei. Nós não usamos guias, só o guia de viagem em livro. As duas alturas são óptimas. Mas eu apostava no início do ano. Infelizmente o Brasil ainda não está na nossa lista. Por muitas razões mas a principal desculpa é pela questão da segurança. Nós gostamos muito de produzir conteúdo de fotografia e vídeo e confesso que tenho um pouco de medo. Mas um dia a gente vai. bjinhos e obrigada
Lusa Pinto says:
Adorei o texto que mostra a tua humanidade.
Tomás Reinales says:
Olá Rui e Carla é o Tomás. Sou de Melgaço. Sou filho da Patricia e do Alexandre. Tenho 7 anos e vejo sempre os vossos vídeos. Eu gosto muito do mundo e de países. Eu gostava muito de ir convosco à Indonésia e a outros sítios, como a Mongólia. Beijinhos.
Carla Mota says:
Quem sabe um dia vais, Tomás. bjinhos
Carla Mota says:
Obrigada <3