Para o nosso último dia na ilha do Fogo, iríamos dizer adeus à ilha do Fogo, fazendo o trilho de descida de Chã das Caldeiras a Mosteiros, uma povoação junto ao mar, perfazendo um desnível de 1700 m. Teríamos de começar cedo em Chã das Caldeiras, pois queríamos estar em Mosteiros por volta do meio-dia, de modo a termos tempo de almoçar e, depois, estarmos prontos para o nosso encontro combinado com o Domingos, o taxista que nos levaria até ao aeroporto.
Depois do pequeno-almoço na Chã das Caldeiras, e de nos despedirmos dos nossos anfitriões e amigos, Alcindo e Letícia, começámos o percurso por seguir a estrada que vai de Chã das Caldeiras, atravessa Portela e liga à povoação de Bangaeira.

No primeiro dia na Chã das Caldeiras, tínhamos conhecido apenas a parte sul da Portela, mas agora tínhamos a oportunidade de ter uma ideia mais próxima daquilo que tínhamos visto do cimo do vulcão sob Chã das Caldeiras. Foi verdadeiramente impressionante testemunhar a maneira como a lava soterrou grande parte destas localidades nas Chã das Caldeiras, mas passou ao lado de algumas casas, e parou junto aos muros de outras um pouco por toda a Chã das Caldeiras.

Em alguns casos, a lava ocupou algumas divisões de uma casa da Chã das Caldeiras, poupando outras. Mas mais impressionante ainda, é ver que muitas destas casas de Chã das Caldeiras já estão novamente habitadas com os seus ocupantes. A vida está lentamente a voltar à Chã das Caldeiras.

Depois de a estrada acabar em Chã das Caldeiras, seguimos um trilho que seguia junto à base da bordeira. A neblina ia e vinha em Chã das Caldeiras, às vezes tapando o vulcão, outras vezes recuando, emprestando à paisagem uma sensação de mistério. Não nos cansávamos de tirar fotografias ao conjunto magnífico desenhado pela união de diferentes elementos naturais e humanos na Chã das Caldeiras.


Ao chegarmos perto do fim da Bordeira, começámos a entrar numa zona florestada. Chã das Caldeiras ficaria para trás. A humidade do ar permite ali o crescimento de árvores e arbustos, e parecia que estávamos a entrar noutro mundo. Passámos pela casa de um guarda-florestal (onde, na realidade, uma família parecia viver), pagámos uma pequena quantia a um rapazinho simpático, e seguimos caminho.

Este troço era uma lufada de ar fresco (literalmente!) em comparação com o ar árido e agreste da Chã das Caldeiras. As folhas dos arbustos e árvores estavam completamente cobertas de água condensada, e os troncos e pedras estavam revestidos de musgo.

O caminho não era muito íngreme, mas era preciso ter cuidado para não escorregar no piso molhado. Apesar de termos visto no mapa, e de nos terem dito, que havia ali uma zona florestada húmida, esta floresta tropical no meio da ilha do Fogo, fruto de um microclima, acabou por ser uma agradável surpresa neste trilho.

Mais abaixo, as árvores desapareciam, excepto junto a ribeiras que desciam a vertente. Entrámos numa zona parecida com as encostas cultivadas de Santo Antão, e o caminho tornava-se muito mais íngreme e difícil para os músculos e articulações. Não havia uma única zona plana até ao mar e isso fez-se sentir. Estávamos cansados e tivemos de parar algumas vezes.

A neblina começou a levantar mas o tempo continuava um pouco nublado. Mesmo assim, víamos pela primeira vez o mar, e o nosso destino, a povoação de Mosteiros. Esta, na realidade, é um conjunto de povoações que se estendem junto ao mar, ligadas pela estrada costeira que circunda a ilha. O nosso destino era, mais especificamente, a povoação de Igreja. Por isso, quando olhávamos para baixo, não sabíamos muito bem quanto tempo teríamos ainda de caminhada até chegar a Mosteiros.

Quando chegámos à primeira povoação que víamos desde o início do trilho, Pai António, pedimos ajuda à população para nos orientar na direcção de Igreja. Um senhor muito simpático (e portista) ficou surpreendido por ver dois portugueses a sair do mato, e ajudou-nos indicando-nos o caminho a seguir, e ainda tivemos tempo de discutir a mais recente jornada do futebol português (muito popular em Cabo Verde) e os infortúnios do FCP. Mesmo dentro de Pai António, as estradas eram todas íngremes, e o piso não era mais fácil de calcorrear do que o trilho de montanha, principalmente para músculos cansados.

Perto de mais uma hora de descida, chegávamos finalmente à estrada costeira que ligava as localidades de Fonsaco e Igreja. Estávamos já perto, muito perto.

O trilho tinha sido espectacular, com paisagem lindíssima e muito variada, mas estávamos muito cansados, mesmo mais do que no dia anterior da ascensão ao cume do vulcão Fogo. E talvez fosse por isso mesmo: nas últimas 24 h tínhamos subido 1100 m e descido 2800 m de desnível! Mas o cansaço valia a pena, pois só assim podíamos conhecer por dentro Chã das Caldeiras e a ilha do Fogo.

Quando chegámos ao centro de Igreja de Mosteiros, o táxi de Domingos parou ao nosso lado na estrada. Tinha vindo mais cedo, e já esperava por nós. No entanto, ainda íamos almoçar, antes de seguirmos caminho. Escolhemos um restaurante sugerido por Domingos e comemos pudim de peixe, uma espécie de empadão, mas feito com pão, em vez de batata, acompanhado com vegetais e várias espécies de tubérculos. Delicioso!


Estava na altura de despedirmo-nos de Mosteiros e seguirmos caminho. A estrada depois de Mosteiros seguia inicialmente junto ao mar, mas logo à frente, junto à povoação de Fajãzinha, subia um pouco para passar a deslocar-se a uma cota mais alta. A vista era sempre muito bonita, quer para o lado do mar, quer para o lado da bordeira.

A estrada serpenteava, curva após curva, principalmente na zona de Campanas de Baixo e, a seguir, descia até à localidade de São Jorge, para depois pararmos junto ao mar na Ponta da Salina, onde a costa apresentava formações rochosas construídas por lavas de erupções antigas que chegaram até ao mar.

Dali seguimos directamente para São Filipe, ou melhor, para o aeroporto, pois tínhamos voo às 17.00 h para a Praia. Despedimo-nos do Domingos, e da ilha do Fogo e Chã das Caldeiras. Foi a nossa casa durante 4 dias, e ficará para sempre no nosso coração, especialmente Chã das Caldeiras. Mais tarde, diríamos também adeus a Cabo Verde. Há muitos lugares que visitámos, e dos quais gostamos muito, e queremos visitar novamente, mas as viagens que se sucedem, e o muito que temos por conhecer, impedem-nos muitas vezes de repetir destinos. Mas Cabo Verde e Chã das Caldeiras será diferente; não só gostamos, como sabemos que voltaremos em breve. Até lá!


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