
Naqsh-e Rostam foi a maior descoberta que tivemos no Irão. A poucos quilómetros de Persepólis, os túmulos de Naqsh-e Rostam fizeram-nos sentir novamente o gosto pelo inesperado. Sentimo-nos exploradores do século XVI, que encontravam pela primeira vez algo nunca visto, nem sequer imaginado. Em que outro local do mundo tal poderia acontecer senão no Irão?
CONTEÚDOS DO ARTIGO
A verdade é que o facto de certos países estarem fechados ao ocidente e ao mundo globalizado tem vantagens e desvantagens. As desvantagens afectam principalmente as populações locais, mas as vantagens, para quem viaja, são muitas. Não é fácil encontrar locais monumentais fora dos roteiros turísticos. Os lugares mais bonitos estão cheios de turistas, sejam eles independentes ou em viagens organizadas. Com guias de bolso ou com guias turísticos, todos vão aos mesmos lugares e vêem as mesmas coisas.

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Há países que, pela sua imensidão e diversidade paisagística, conseguem manter espaços igualmente interessantes fora dos roteiros, como o caso da Argentina, Índia, China ou Mongólia. Nesses casos, a maioria dos viajantes e turistas visita as principais atracções e deixa uma parte imensa do país por explorar. O Irão é um desses países e Naqsh-e Rostam um desses lugares.

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A 12 km de Persépolis, num local chamado Naqsh-e Rostam (نقشرستم, em persa), situam-se os túmulos colossais de 4 reis persas Aqueménida. Os túmulos de Naqsh-e Rostam são impressionantes e sinto o meu queixo cair quando me vejo de frente a um local assim.

Os túmulos de Naqsh-e Rostam são impressionantes e qualquer viajante, por mais experimentado que seja, não deixará de se surpreender perante a sua grandeza. Naqsh-e Rostam data de há 2500 anos e os túmulos foram redescobertos por um arqueólogo alemão em 1923, escavados em 1936 e 1939, e, apesar de estarem bastante danificados, ainda exibem murais decorados e inclusive inscrições na porta de um deles.

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Os túmulos de Naqsh-e Rostam estão escavados na rocha e apresentam uma forma de cruz, pelo que são localmente conhecidos por “Cruzes Persas”. A entrada dos túmulos, no centro das cruzes, está a cerca de trinta metros de altura em relação ao solo, e a altura das cruzes escavadas na rocha, de alto e baixo, é cerca de quarenta metros.

Uma inscrição na entrada de um dos túmulos de Naqsh-e Rostam permitiu identificá-lo como o local de repouso do imperador persa Dario I. Os outros túmulos não estão identificados, mas os arqueólogos acreditam que pertencerão a Xerxes I, Artaxerxes I e Dario II.

Parte dos murais e dos túmulos de Naqsh-e Rostam foi saqueada e destruída durante o império de Alexandre, o Grande, contudo, apesar de não se poder subir ou entrar nas câmaras mortuárias, a visão daquilo que nos rodeava era ímpar.

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Sete murais estão esculpidos na rocha de Naqsh-e Rostam e são gigantescos, com cerca de dez metros de altura. Representam figuras e batalhas importantes do império sassânida entre 224 e 309, tendo, no entanto, o império se prolongado até ao ano 651.


Em frente ao túmulo da esquerda de Naqsh-e Rostam encontra-se um edifício paralelepipédico de seu nome Ka’ba-ye Zartosht, construído num nível inferior ao do solo actual, com a altura de um prédio de quatro andares, sendo que metade do edifício está escavado abaixo do solo. Pensa-se que este local poderia destinar-se a preservar os corpos dos imperadores aqueménidas enquanto o túmulo que os iria receber não estivesse pronto, mas há quem defenda que tenha sido um Templo do Fogo zoroastriano ou um Tesouro Real.

Ao olharmos para Naqsh-e Rostam víamos algo que nunca imaginámos, túmulos monumentais e um dos lugares mais incríveis do mundo. Lembrou-nos Petra, pela singularidade, Machu Pichu, pela forma como o homem desafiou a natureza, as pirâmides do Egipto, pela dureza da paisagem. Acrescia a tudo isto o facto de haver vinte ou trinta pessoas a visitar Naqsh-e Rostam. Pessoas que se passeavam como se estes lugares existissem ao virar de cada esquina. Pessoas que pareciam não reparar que estavam perante algo único e incomparável. Só nós parecíamos estar boquiabertos e petrificados em Naqsh-e Rostam. Como poderiam eles saber que o que têm perante os seus olhos é único? São iranianos, são aqueles a quem o mundo globalizado fechou as portas.

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Ali em Naqsh-e Rostam e no Irão, o turismo organizado é muito raro, assim como viajantes independentes. A ausência de um turismo de massa permite que a população que vive do turismo seja muito pouca e que mantenha um estilo de vida e uma atitude muito conservadora. Os poucos turistas que recebem são muito bem tratados. De que outra maneira poderiam passar uma imagem positiva do Irão neste mundo globalizado? A comunicação social passa as imagens que diariamente vemos nos telejornais; o país está quase fechado ao exterior, daí que só quem entra pode trazer o verdadeiro espírito do país para fora. Reflectimos sobre um país fechado ao mundo. Ou será que foi o mundo que se fechou aquele país?

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Um dia, o Irão irá abrir-se ao mundo globalizado, não através de uma pequena janela, mas através de uma avalanche de informação. Nessa altura, o turismo no Irão irá mudar. Provavelmente como no Egipto, a generosidade dará lugar à ganância, e o excesso de turistas poderá destruir aquilo que a população tem de melhor, que é a sua cultura.

Quando viajamos temos ideias pré-concebidas sobre lugares, povos, culturas e monumentos. Quando conhecemos esses lugares as reacções são um bocado contraditórias. Uns superam as nossas expectativas, outros, pelo contrário, não correspondem às expectativas que tínhamos. No entanto, ocasionalmente, acontece-me pensar “só isto?”. Na verdade não quer dizer que não tenha gostado, até pelo contrário, o que significa é que já tanta coisa foi dita e vista sobre aquele lugar que não sinto nada de especial ao vê-lo. Parece que já o conhecia. Senti isto da primeira vez que vi o Taj Mahal, a Grande Muralha da China ou o Coliseu de Roma. No entanto, depois de passar algum tempo nesses locais e os ver devidamente, duvido da minha reacção. São lugares incríveis e maravilhosos, são maravilhas do mundo.

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Nas minhas viagens, o que mais gosto é descobrir lugares sobre os quais nada sabia, lugares inóspitos e perdidos. Naqsh-e Rostam foi isso e Irão isso e muito mais. São lugares perdidos essencialmente deste mundo globalizado que nos traz todos os dias a sensação de que conhecemos tudo, mas que na realidade não conhecemos nada.

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Os túmulos de Naqsh-e Rostam fizeram-me, ao fim de muitos anos, sentir assim. Senti-me uma exploradora do século XVI que encontra pela primeira vez algo nunca visto nem sequer imaginado. Em que outro local do mundo tal me poderia acontecer senão no Irão?

O que distingue um turista de um viajante é a experiência local que o segundo possui, ao contrário do primeiro. E visitar o Irão e Naqsh-e Rostam (que é Património Mundial da UNESCO) faz-nos reflectir sobre isto. O viajante pede boleia, enfrenta filas intermináveis para comprar bilhetes de comboio e de autocarro, dorme no chão, no aeroporto, na estação, na tenda, na casa das populações locais e, quando tudo corre bem, em hostels ou hotéis. Viaja mal para poupar dinheiro, come mal para tentar compensar o dinheiro que gastou para dormir no hotel e visita os monumentos porque esse foi o motivo que o trouxe ali. O turista chega de avião, anda no transporte escolhido pela agência e visita os lugares e os monumentos.

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A grande diferença é a sensação que fica no final da viagem. O turista recorda monumentos e hotéis de quatro e cinco estrelas. O viajante recorda pessoas, experiências, peripécias, contratempos e dificuldades, que a maioria das vezes as dores nas costas não deixam esquecer. No entanto, foram os monumentos que atraíram ambos ao mesmo local. Foram os lugares que levaram os turistas e os viajantes a escolher o mesmo destino. Quando regressam a casa, as fotografias não vão mostrar grandes diferenças. A diferença reside sempre no indivíduo, e por muito que se tente mostrar, ninguém que não tenha feito o mesmo o irá compreender.

Se vai viajar para o Irão, estes são alguns artigos no nosso blogue que lhe podem interessar

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kakaroto says:
Parabéns, quão belo e gratificante é saber que existem pessoas com sensibilidade para partilhar cultura e experiencias…só me resta agradecer pelas lindas e curiosas
imagens e leitura que me proporcionou…
Antonya Eduarda .
Carla Mota says:
Concordo completamente. 🙂
Carla Mota says:
Ainda ben que gostaste, Therrya. Fico muito contente. Eu adoro partilhar as emoções das minhas viagens mas nem sempre é fácil. Viajar está cada vez mais díficil por isso é preciso escolher muito bem os destinos e aquilo que queremos. Obrigada pelas tuas palavras. 🙂
Theca says:
" A Vida não é medida pelo número de vezes que respiramos, mas pelos Lugares e momentos capazes de nos tirar o fôlego". Carla, muito obrigada por este blog. Amo viajar mas ultimamente tenho outras prioridades, então vou viajar e me emocionar no seu blog.
Mais uma vez obrigada.
E boa viagem sempre
Therrya
Aluguer de Carros says:
Tenho a certeza que o viajante no fim de cada viagem fica a conhecer mais e traz mais na sua bagagem sentimental do que o simples turista, já para não falar nas experiências.
Carla Mota says:
Bem verdade…
Jose Macieira says:
Obrigado. Partilhar, é tambem permitir aos outros viajar, neste tempo e nos outros já vividos pelo homem.
Carla Mota says:
Obrigada, Clara. Às vezes não me sinto motivada para escrever sobre o que sinto nos lugares que visito. Aqui, achei que estava na hora de o fazer.
Lusa says:
Gostei.Obrigada pela partilha. 🙂
Clara Amorim says:
Parabéns, viajante! Magnífico texto e magníficas fotografias!!!
Espero que continues a viajar, viajar, viajar…!