Os dias que passamos em Teerão foram especialmente dedicados a tratar de aspectos logísticos da viagem, nomeadamente o visto do Turquemenistão e a comprar bilhetes de comboio para as viagens dentro do Irão, nomeadamente BANDAR ABBAS.
Saímos de Teerão para Bandar Abbas atrasados duas horas em relação ao horário estipulado. Eram duas da tarde quando o comboio iniciou a sua marcha. O comboio cruza o país de norte a sul, atravessando deserto. As poucas paragens que efectua parecem ser em pequenas povoações: ninguém entra nem ninguém sai. Se não fossem as cabines todas ocupadas por famílias iranianas seriamos levados a pensar que viajávamos num comboio fantasma.
Lá fora continuamos a atravessar o deserto. Mudam as montanhas ao fundo, mas no essencial a paisagem mantem-se inalterada por centenas de quilómetros. A monotonia da paisagem deixa-me tempo suficiente para trabalhar na tese. Com o sol a descer no horizonte, começa-se a fazer cada vez mais escuro e o deserto mantem-se. Passamos agora por paisagens sucessivamente enegrecidas pela noite, onde nem as estrelas iluminam o nosso caminho. Deitada na cama, olho novamente pela janela. Tenho a esperança de conseguir encontrar alguma claridade. Tarefa inglória. A noite é impenetrável, até pela luz. Adormeço embalada pelo balançar do comboio nos carris. Acordo um pouco antes de chegar a Bandar Abbas. Quando o comboio pára na estação e as portas se abrem sinto-me teletransportada para um destino tropical. Talvez a Tailândia! O que me deu para pensar neste país? Não há qualquer semelhança entre estes lugares a não ser o imenso calor e a humidade do ar. Quando saio do comboio os meus óculos ficam completamente embaciados e saco da máquina fotográfica para eternizar este momento. Também a máquina fica coberta de vapor de água condensado.
O calor de Bandar Abbas é insuportável. Não faço ideia de quantos graus estão mas respirar aqui é uma tarefa hercúlea. Recolhemo-nos na estação de comboio. Parece incrível mas o AC da estação era motivo suficiente para que nós equacionássemos passar ali o dia. No entanto, não foi para isso que viemos aqui. Viemos a Bandar Abbas para conhecer três coisas: o Golfo Pérsico, o Estreito e a ilha de Ormuz e Minab.
Em Bandar Abbas recebeu-nos o MohammadReza, o nosso anfitrião de couchsurfing. É um rapaz espectacular e super divertido. Como dizem na Argentina “muito boa onda”. Foi-nos buscar à estação e levou-nos até ao porto de Bandar Abbas onde apanhamos o barco para a ilha de Ormuz. MohammadReza ficou com as nossas mochilas e combinamos encontra-nos novamente quando regressássemos da ilha. Foi isso que fizemos.
MohammadReza já os esperava e fomos até sua casa. Conhecemos os seus pais e irmãos e deu-nos almoço. Passamos o resto da tarde a conversar com ele e com a sua família. Foi uma tarde muito agradável. MohammadReza trabalha numa refinaria de gás e hoje faz turno da noite. Assim, combinamos sair até à hora em que começava a trabalhar e depois iríamos passar a noite a casa de um amigo que nos daria um sítio para dormir.
Tentamos ver o pôr-do-sol no Golfo Pérsico mas o trânsito intenso fez-nos perder as cores do sol. No entanto, chegamos a tempo de ter luz suficiente para ver os inúmeros barcos que cruzam o golfo, alguns atracados perto da praia, outros naufragados junto à costa. Da praia fomos comer gelado e sumo de romã e ainda visitamos o mercado de peixe.
MohammadReza tinha que ir trabalhar e apresentou-nos o Reza, um jovem iraniano bastante simpático, cuja família nos recebeu de braços abertos por uma noite. Reza levou-nos para sua casa, mesmo no centro da cidade, ao lado do Bazar, e apresentou-nos a sua mulher e filho de ano e meio. Reza tinha que trabalhar até às onze da noite e por isso ficamos em casa dele com a família. Apesar da barreira linguística (nem a mulher nem o filho falavam inglês) entendemo-nos perfeitamente. O Sepehá é um bebé muito querido e sociável. Foi logo buscar o seu balde de legos e passamos a noite a brincar. A mulher do Reza borda as caneleiras das calças das mulheres Bandari. Foi uma noite muito bem passada. Às onze e meia da noite fomos brindados por um magnífico jantar caseiro de ghorme sabzi, uma espécie de estufado de couve verde, com feijão e carne de borrego. Quando acabamos de jantar era quase uma hora da manhã. E eu a pensar que em Portugal comíamos muito tarde!
No dia seguinte Reza e a mulher prepararam-nos um belo pequeno-almoço e levaram-nos até ao local onde apanhamos transporte para Minab, onde visitamos o mercado semanal. Quando regressamos Reza e a família voltaram a receber-nos de braços abertos. Queriam que almoçássemos mas nós não podíamos. Tínhamos que apanhar o autocarro para Kerman. A nossa viagem tinha que continuar.
O autocarro que saiu de Bandar Abbas a caminho de Kerman voltava a percorrer o deserto. Agora a paisagem ainda parecia mais desoladora e o trânsito era terrível: camiões atrás de camiões que entravam e saiam do maior porto marítimo do Irão. O autocarro era horrível. Cheirava a gasóleo, vinha cheio de gente que transpirava tanto ou mais do que nós e o ar condicionado estava longe de ser eficiente. No entanto, quando me sentei no banco e me inclinei para trás sabia que a minha passagem por Bandar Abbas tinha sido mais que positiva. Aparte de tudo o que tinha visto e conhecido no golfo, tinha experienciado outra vez uma das melhores coisas do Irão: a hospitalidade das suas gentes.
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