
Os ciganos do mar do Bornéu são povos Bajau, da etnia Sama. Apesar de lhes chamarem “ciganos do mar”, este nome é uma espécie de alcunha. Os povos de etnia cigana são originários, provavelmente da Índia e terão migrado para a zona da Roménia, na Europa, há séculos e não tem nada a ver com estas populações do Bornéu.
O nome “ciganos do mar” é uma designação popular dada pelos europeus numa alusão ao facto destes povos viverem de forma nómada nos recifes de coral e mudarem de casa frequentemente. Sendo assim, estes povos não são ciganos de etnia e, tal como os ciganos romenos, também não são pouco civilizados. Apenas têm modos de vida distintos dos da maioria da população mundial. Contudo ser diferente não significa ser melhor ou pior.

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Os Bajau são povos que habitavam os recifes de coral e viviam com aquilo que a natureza lhes dava, durante mais de mil anos, pescando o necessário para alimentar a família e viver. As casas eram construídas em estacas, fixadas no próprio recife. Já tínhamos visto os ciganos do mar durante a nossa viagem pela Indonésia, na ilha de Sulawesi, no arquipélago de Togean.

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Contudo, em 2004, os Bajau foram proibidos de viver nos recifes, sobre o pretexto que os estavam a danificar. E até poderiam estar pois alguns usavam dinamite na pesca. Porém, em vez de proibir o uso de dinamite na pesca, os estados proibiram os Bajau de habitar os recifes e ordenaram a que estes povos se ficassem em ilhas.
Ao fazê-lo, os Bajau foram obrigados a viver em terra, diminuído drasticamente a forma como pescavam, e o acesso aos peixes. Com os recifes muito longe, nem todos os Bajau têm meios para poderem pescar e alimentar as suas famílias.

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A sedentarização levou a que a pobreza aumenta-se e com ela diminui-se a dignidade da vida dos ciganos do mar. A marginalidade aumentou nas cidades, tal como em Semporna, e a quantidade de gente a viver nas ruas também. Os Bajau tentam vender agora o pouco que pescam para sobreviver em selvas urbanas no Bornéu.
Os Bajau mudaram a sua dieta, e em vez de comerem o que o mar lhes dava, peixe, marisco e algas, tiveram de passar a comer o que os supermercados lhes dão, produtos embalados em plástico. Não é por isso de estranhar a quantidade de plásticos em todo o lado, inclusive no mar.

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Só que os governos esqueceram-se de ao mesmo tempo que proibiram os ciganos do mar de viver no recife, lhes dar condições para eles viverem dignamente em terra. Nas ilhas não há recolha de lixo, nem um simples caixote para o depositar, porque os governos nacionais, regionais e locais, não fazem qualquer recolha ou tratamento dos lixos.
Os lixos amontoam-se ali porque não há ninguém que os tire. O que aconteceria ao contentar em frente a tua casa se durante anos não passasse a recolha do lixo? Viverias exactamente assim, como vivem os Bajau!
As casas dos Bajau, que eram isoladas nos recifes e distribuídas por vastas áreas, são agora concentradas em terra e, os dejectos das habitações, que outrora caiam no alto mar em áreas gigantescas, são agora descarregados na costa e no mar, todos no mesmo local.
Os governos esqueceram-se de criar saneamentos, condições de higiene condignas e salubridade para os locais onde estes povos, homens, mulheres e crianças vivem. Deixaram de ser ciganos do mar mas a sua qualidade de vida diminuiu.
Dizem que os Bajau destruíram os recifes, e para os proteger, os Bajau tiveram de ser mudar. Mas hoje, esses mesmos recifes têm resorts de 5 estrelas, com bungalows sobre a água. Os Bajau que habitavam os recifes, deixaram de o poder fazer. Os turistas endinheirados passaram a ter esse privilégio.

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Os Bajau não são ciganos, muito menos pouco civilizados. Os Bajau são vítimas da ganância e interesses mundiais que nos é tantas vezes “vendida” com rótulos bonitos e ecológicos. Na realidade, estes rótulos só enganam quem não lê, não pesquisa, não viaja. É por isso que é cada vez mais urgente ser culto e informado.
A informação que chega aos cidadãos comuns é medíocre e, se não formos exigentes, também nós seremos cada vez mais medíocres nos julgamentos que fazemos dos outros.

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