O céu estava negro e ameaçava chover a qualquer momento. O frio enregelava-nos as mãos. Mesmo de casacos grossos, não apetecia sair do jipe. Mas sabíamos que devíamos fazê-lo. As montanhas de Dahar e Chenini chamavam por nós.
A menos de 20 km de Tataouine encontra-se uma pequena aldeia pendurada nas vertentes de um colina rochosa no planalto de Dahar. Esta aldeia não seria muito diferente de outras da região, não fosse grande parte das habitações serem casas trogloditas escavadas na rocha e a aldeia parecer estar completamente pendurada na montanha.

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Recebeu-nos Ahmed, um berbere muito energético e bem disposto. Começou logo a caminhar montanha acima e a contar a história da aldeia. Pegou-nos por um braço e levou-nos dentro de uma casa. Estava entusiasmado. Há duas semanas que nenhum europeu vinha ali. Estrangeiros? De vez em quando lá aparece um grupo de chineses ou japoneses, mas queixa-se, não dão nada a ninguém. “São pobres, ou então são agarrados ao dinheiro!”, diz Ahmed.

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O planalto de Dahar é composto por várias montanhas que constituíram ao longo dos séculos refúgio de populações berberes. As aldeias foram construídas nestas montanhas e a rocha sedimentar, mais branda, foi utilizada para escavar casas e abrigos. Estas habitações têm a particularidade de ser frescas durante o Verão e conservarem-se quentes durante o Inverno. As aldeias eram geralmente fortificadas sobre as escarpas rochosas, e apresentavam, para além das casas trogloditas, um ksar. Ahmed mostrou-nos o interior de uma casa mas como ameaçava chover, demos prioridade a explorar o exterior antes que São Pedro decidisse irrigar estas terras.

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Chenini foi uma cidade importantíssima do ponto de vista geoestratégico da região, e do alto dos seus 500 metros, é possível observar o planalto de Dahar por vários quilómetros. A sua posição estratégica permitiu aos berberes sobreviverem a sucessivas invasões no século XI e a diplomacia dos seus governantes possibilitou estabelecer relações com diversas tribos árabes. Estas relações comerciais foram determinantes para o seu florescimento e sobrevivência ao longo dos séculos.

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A maioria dos edifícios da aldeia são construídos em adobe e parte das habitações escavadas na rocha. No entanto, o branco caiado do minarete e da mesquita, no topo da aldeia, sobressai na paisagem tanto hoje como outrora, quando servia de ponto de referência para as caravanas de camelos que cruzavam o Magrebe em direcção à Rota da Seda.
Foi nesse momento que começou a chover. Abrigámo-nos temporariamente numa entrada e aguardámos que parasse. E parou. Parou e o sol apareceu. Mas foi por breves minutos. Talvez cinco, não mais. Eu e o Rui corríamos de um lado para o outro para tentar tirar fotografias da aldeia com luz solar. Ahmed ficou baralhado. Deve ter pensado “gente estranha”. Resolveu então surpreender-nos. Tirou a sua vestimenta e vestiu-a ao Rui. Sorrimos e tiramos umas fotografias. Ahmed estava radiante.

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Mas o céu escuro voltou. As nuvens cobriram os céus e a ameaça de chuva continuava. O frio era cada vez mais. A aldeia estava mais negra.


Infelizmente a maioria da aldeia está hoje desabitada e despovoada. Parece uma cidade fantasma esquecida pelo tempo. O governo tunisino construiu uma nova aldeia na base da montanha e as populações mudaram-se para lá. São muito poucos os resistentes.
Apesar do tempo não ter ajudado e da falta do elemento humano, tão importante para o carisma dos lugares, Chenini é uma aldeia fabulosa e do mais belo que descobrimos na Tunísia. Foi dos lugares que mais nos deslumbrou neste nosso périplo pelo país. Mas era hora de partir e de nos despedirmos de Ahmed. A nossa viagem seguia agora em direcção a Matmata.

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