Viajar no Togo pode ser um desafio, especialmente se quiser conhecer as tribos do norte, cujas habitações são património mundial da Humanidade. Viajar no Togo entre as principais cidades é fácil, o difícil e caro é embrenhar-se no país. O Togo, contudo, é um excelente destino de viagem e sendo a pátria do vodu, uma das maiores descobertas culturais de África.
CONTEÚDOS DO ARTIGO
O Togo é um dos mais pequenos países africanos, quer em termos de território como de população. Para ali chegar cruzamos a fronteira no dia anterior, já noite, e percebermos que Lomé, a sua capital, é uma urbe em franco crescimento económico, graças à existência de um porto de mar de águas profundas.
Em Lomé, no Togo, uma África tribal convive com uma África moderna, lado a lado. O Togo é a pátria do Vodu, uma religião tribal animista que assenta no culto aos antepassados e às ligações com os espíritos.
O Vodu é praticado por milhares de pessoas no mundo, fruta da diáspora dos escravos, especialmente em direcção às Américas. Muitas vezes confundido com a magia negra, o vodu nada tem a ver com os filmes hollywoodescos e os seus praticantes, embora continuem a fazer sacrifícios animais, pedem aos deuses o mesmo que todos os outros fiéis que oram a outros deuses de outras religiões. Pedem prosperidade, uma vida melhor, saúde, trabalho, felicidade e o melhor para os seus filhos.
Perceber esta religião no Togo é difícil e complexo, daí a ignorância generalizada no mundo e a facilidade com que os estereótipos ligados à magia negra cresceram. Ainda mais porque era uma religião praticada por escravos, escondidos, à noite, e proibida pelo cristianismo. Tudo isso ajudou à propagação de uma ideia negativa, assente no medo do desconhecido e na diabolização dos rituais tribais trazidos pelos escravos. Estes rituais eram vistos como pecaminosos, sujos, indignos e um ultraje pela igreja católica. Esta mentalidade perdurou até aos dias de hoje.
No mercado de fetiches do Togo, em Lomé, um dos maiores mercados de vodu do mundo, começamos uma nova etapa nesta viagem. Vamos embarcar numa viagem pelo Vodu, deixando para trás a ignorância e tentando perceber as crenças destes povos aqui no Togo.
Saímos de Lomé, capital do Togo, rumo ao norte do país. Pelo caminho, um novo país desfila na nossa janela. A viagem será longa porque aqui as distâncias envolvidas são grandes e o trânsito de camiões em direcção ao Níger, Burkina Faso e Mali é intenso.
Só parámos duas vezes durante o dia, uma para visitar uma aldeia tradicional do Togo e outra para almoçar, num boteco de beira de estrada. Oramos aos deuses e aos espíritos para nos protegerem dos males intestinais e parece ter funcionado.
Na aldeia do Togo, depois de um passeio onde pudemos ver os modos de vida tradicionais das populações, nomeadamente no cultivo de ananás e na produção de óleo de palma, fomos presenteados com uma cerimónia de gémeos.
No início não estávamos a perceber o que estava a acontecer nem o porquê. Pareciam duas mulheres a brincar com estátuas de madeira como se fossem bonecas. E eram. Estas bonecas representam os gémeos mortos e são tratados como se estivessem vivos ali no Togo. As mulheres despem-nos, lavam-nos e até fingem amamentar. É um ritual diário no Togo.
Os gémeos no Togo são sinal de fertilidade e bastante auspicioso para as famílias. Uma mulher que tem gémeos é mais respeitada pela comunidade. Os gémeos são um símbolo no Togo e, apesar de serem raros, por estas bandas são bastante comuns. Nos dias seguintes iríamos ver vários.
Já era noite quando chegamos a Kara, a cidade a norte do Togo. No dia seguinte, ainda rumaríamos um pouco mais a norte mas com cuidado, porque um grupo jihadista do Burkina Faso tem levado a cabo na região fronteiriça do Togo alguns ataques e raptos e todo o cuidado é pouco. Era hora de descansar, amanhã teremos um dia cheio de aventuras pela frente.
O Togo pode ser um país pequeno mas tem uma grande diversidade étnica e cultural, especialmente na parte norte do país. Uma das razões que nos trouxe a esta zona do Togo foi poder testemunhar os modos de vida tradicionais das tribos Koutamakou, espalhadas entre os territórios do Togo e do Benim.
As tribos de Koutamakou habitam esta região do Togo há séculos, muito antes das fronteiras traçadas pelas potências colonizadoras que por aqui passaram, alemães, ingleses e franceses. Hoje divididos por dois países, continuam a migrar e a atravessar as fronteiras como se elas não existissem, já que muitos deles nem sequer têm documentos formais.
As fronteiras políticas dividem países e povos um pouco por todo o mundo, mas em África são o resultado arbitrário dos interesses supranacionais e, nunca tiveram em atenção a natureza étnica das populações. Porém, para agravar estes problemas há povos que são nómadas e que circulam entre países, como os fulani no Togo. São criadores de gado, não vão à escola e ninguém sabe muito bem quantos são nem por onde andam no Togo. Os outros povos gostam pouco deles, já que a passagem do seu gado destrói as culturas e os confrontos ocasionais ocorrem.
Os povos sedentários do Togo são os de Koutamakou, que vivem em comunidades pequenas, fechadas, em famílias poligamicas, e cuja arquitectura das suas casas chamou a atenção do mundo e foi classificada como património mundial da Humanidade pela Unesco.
As casas parecem pequenos castelos, com torres e paredes feitas em adobe, criado com lama, excrementos de animais e água. Apesar de pequenas, as habitações têm dois andares e espaços separados para o homem, mulheres e crianças, assim como cozinha e espaços para armazenar os cereais das colheitas.
Somos recebidos por uma família no Togo. O chefe é o patriarca, já com mais de 60 anos e tem várias mulheres. As crianças são às dezenas, mas muitas foram para a escola. Há apenas algumas mulheres e crianças em casa. As mulheres envergam chapéus feitos em pele de vaca com cornos de antílope. As mulheres são pouco amistosas, um tanto ou quanto agressivas até e não gostam de fotografias ou de proximidade.
Enquanto mulher, tenho conseguido, em praticamente todo o mundo, aproximar-me das mulheres e ter algum contacto. Aqui foi muito difícil. A única que parecia mais acessível era uma filha (na realidade nora) adolescente do chefe a quem ofereci uma pulseira. Ainda assim, pouco mais do que um sorriso recebi em troca. Senti algum desconforto ali no Togo mas a viagem é mesmo assim. Uns dias os povos brindam-nos com sorrisos e generosidade, noutros com desconfiança e medo.

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