No entanto, este ano decidimos que não podíamos adiar mais. Já conhecemos alguns países do norte de África mas na verdadeira África negra somos “virgens”. Uma das razões que nos fez sempre adiar as viagens pelos países africanos foram os custos económicos associados. Viajar neste continente não é barato, já que as infraestruturas de apoio ao turismo são poucas, e as que existem cobram-se de preços exorbitantes. Ponderamos várias vezes conhecer África integrando viagens mais ou menos organizadas mas a experiência parecia-nos menos autêntica. Foi então que, apenas duas semanas depois de regressar da Rota da Seda, quando a mochila ainda nem sequer tinha sido desfeita e a adrenalina ainda corria encarcerada dentro das nossas veias, que num momento de loucura, compramos passagens aéreas de ida e volta para Dakar, no Senegal. E estava feito. O mais difícil é sempre comprar o bilhete de avião. O resto vem com o tempo.
Agora que a data da viagem se aproxima a viagem parece mais real. Vamos para África em Dezembro. Vamos conhecer as cores quentes e fortes deste continente.
Sabíamos que as deslocações no terreno por terras africanas iam ser um desafio e seriam determinantes no sucesso do nosso itinerário no Senegal. Os transportes públicos no
Senegal não têm horários estabelecidos, e as estradas têm as suas limitações, por isso existiam razões suficientes para termos alguma flexibilidade nos nossos planos. No entanto, resolvemos ser ambiciosos!
As opções no terreno são variadas. Os autocarros de longo curso no Senegal chamam-se
cars mourides (propriedade da irmandade islâmica de Touba) e ligam
Dakar às principais cidades do país. São uma opção barata, mas lenta, penosa e imprevisível. Todos os veículos de transporte público de tamanho menor do que estes autocarros são denominados por
taxi-brousse (táxi do mato). Saem quando completos, sendo que o tempo de espera depende da zona onde nos encontramos e da hora do dia. Regra geral, o melhor momento é entre as 6.00 e as 9.00h.
Dentro desta categoria, existem os ‘Ndiaga Ndiaye (também conhecidos por grand cars), mini-autocarros Mercedes de 32 lugares que ligam localidades próximas, parando frequentemente, uma vez que em algumas regiões são o único meio de transporte público. Distinguem-se pela sua cor branca e a palavra Alhamdoulihali (graças a Deus) escrita na parte da frente. Um pouco mais pequenos, e operando sobretudo em zonas rurais, os petits cars cumprem a mesma função.
Finalmente, o táxi sept-place, um Peugeot 504 de 7 lugares (como o nome indica), normalmente em condições decrepitas, mas que constitui a opção mais fiável e rápida (ainda que mais cara) para deslocações longas por todo o país. Quem chega primeiro senta-se ao lado do condutor e os restantes vão preenchendo os lugares das restantes duas filas. Esta seria a opção em que iríamos basear o nosso ambicioso itinerário, e até agora não nos desiludiu.

Como é então um dia normal de trânsito pelo
Senegal? Esqueçam o descanso e preparem-se para levantar cedo. Desde que cá estamos a hora a que o despertador toca não ultrapassou as 7.00h! E a viagem de regresso de
Tambacounda não foi excepção. Às 6.00h, lavar a cara e os dentes e arrumar as mochilas. Um pequeno-almoço rápido no hotel, e sair com a primeira luz da alvorada. Apanhamos um táxi na avenida principal até à
gare routière, a estação local. Não sem antes pararmos para meter gasóleo (para um percurso de 3 km!) pois os tanques dos táxis andam sempre na reserva!
Apanhamos um
sept-place em direcção a
Kaolack, saindo às 7.30h. Neste troço a estrada está em boas condições e, apesar do lugar apertado, a viagem de 4h faz-se bem. Os senegaleses que rondam a
gare (adultos e crianças) não têm uma abordagem agressiva e os motoristas cobram-nos o mesmo preço dos locais, puxando um bocadinho no preço da bagagem.

Resolvemos fazer uma pausa na viagem em Kaolack para visitar o seu mercado coberto, diz-se um dos maiores de África, tendo sido interessante ver os costureiros partilhar quase o mesmo espaço com os vendedores de carne. Mas o calor começava a apertar e ainda não sabíamos o que o nosso percurso para o dia nos reservava, por isso continuamos, apanhando outro táxi, novamente até à gare routière nord. Dali seguimos em sept-place em direcção a Mbour, mas saindo num cruzamento numa localidade chamada Ndiosomone. Mais 1 hora e meia numa estrada em muito más condições, de tal forma que os veículos por vezes saem da estrada e seguem ao lado por terra batida. Era o Senegal.

Quando saímos no cruzamento, eram cerca das duas da tarde, com um calor intenso. A única opção no local era um
grand car que estava quase cheio. Tínhamos 2 lugares junto à porta traseira, pela qual entram os passageiros depois de serem colocadas as suas bagagens no tejadilho. Este último também acabou por carregar vinte enormes sacos de amendoins. O percurso de 30 km que nos separava do nosso destino, a vila no
delta de Ndangane, demorou 2 horas. O autocarro parava por vezes de 100 em 100 m para deixar entrar e sair pessoas e mercadorias, tudo isto condimentado por um cheiro intenso a peixe seco transportado pelos locais e um calor abrasador. Por companhia tivemos uma anciã muito simpática, a quem a Carla chamou carinhosamente
mãe Senegal.

Mas ainda não era o fim. O autocarro finalizou a sua marcha em Fimla, a cerca de 5 km de
Ndangane, onde tivemos de apanhar um novo táxi partilhado (o último do dia!) para percorrer estes quilómetros finais, mais uma vez na companhia da nossa
mãe Senegal.
Chegamos ao nosso destino cerca das 17.00h. Um longo dia de trânsito no
Senegal, quase de sol a sol, por terras senegalesas. Isto é África!