Depois de atravessarmos o vale de Fergana, vindos de Tashkent e passando pela cidade de Andijon, passamos a fronteira em Dostlyk e poucos quilómetros do lado do Quirguistão encontra-se a cidade de Osh. Diz-se que todas as fronteiras são artificiais, mas algumas fronteiras são mais artificiais do que outras. Aquando da criação das repúblicas socialistas soviéticas, Estaline usou a estratégia milenar de dividir para reinar e, de forma a separar grupos étnicos, que ele via como ameaças potenciais à unidade da URSS, em diferentes “nacionalidades”, pegou no mapa-mundo e desenhou algumas das linhas de fronteiras mais absurdas do planeta (que se mantiveram aquando do colapso da URSS e da proclamação da independência das repúblicas da Ásia Central).
Assim, o vale de Fergana e o seu forte pendor islâmico (foi aqui que, nos anos 90, o radicalismo islâmico fez a sua entrada na Ásia Central) está repartido por 3 países: Uzbequistão, Quirguistão e Tajiquistão. Osh é uma das principais cidades do Quirguistão mas tem 40% de população uzbeque e foi, ainda recentemente, palco de extrema violência étnica. Sendo assim, não foi de estranhar que quando atravessamos a fronteira, notamos poucas diferenças relativamente ao Uzbesquistão, salvo as pessoas de etnia claramente mongol e outros afegãos, tal como o grupo de jovens barbudos de olhos claros que gerem a guesthouse onde nos hospedamos.
No Quirguistão, estávamos mais interessados nas montanhas, por isso resolvemos percorrer o país de sudoeste a nordeste o mais rapidamente possível: de Osh a Bishkek (a capital) e de Bishkek a Karakol, onde ficaríamos alguns dias a explorar as montanhas circundantes. Assim, em Osh apenas tivemos tempo de visitar o bazar da cidade, ao longo do rio, mas como chegamos ao final da tarde, muitos vendedores já estavam a encerrar as suas lojas (num estilo nacional, muitas delas dentro de contentores). Ainda assim, deu para ter um cheirinho de um mercado típico de uma cidade que se diz mais velha que Roma (possivelmente fundada por Alexandre, o Grande) e que foi um ponto de encontro de diferentes rotas da Rota da Seda. Osh encantou.
No dia seguinte, partimos de Osh em direcção a Bishkek, num táxi partilhado, para uma viagem de 10 horas quase ininterruptas! Um rapaz (que falava inglês e ia fazer um exame de entrada no ensino superior em Izmir, na Turquia) bem me perguntou “Porque não voar?”, mas a resposta veio quase a seguir: a paisagem é deslumbrante e não há nada que substitua isso, mesmo com o tempo nublado e o cansaço de uma longa viagem. A estrada segue por terreno gradualmente mais montanhoso, até que entra num vale encaixado, seguindo o percurso do rio Naryn, até chegarmos à albufeira de Toktogul. A partir daqui subimos ainda mais, e começam a aparecer yurts com gado a pastar nas encostas inclinadas, o que nos faz lembrar a Mongólia.
A chuva caía intermitentemente, e nós quase a celebrávamos entusiasticamente (não a víamos desde que saíramos de Portugal), não fosse a nebulosidade impedir melhores vistas nos passos a 3184 e 3330 m. A partir daí foi sempre a descer até Bishkek (a 800 m de altitude), onde o tempo estava bastante melhor, e onde só dormimos essa noite mas ainda tendo tempo de ir tirar a barriga de misérias num restaurante italiano, juntamente com um casal francês em viagem de lua-de-mel de um ano!).
De manhã cedo, rumamos a Karakol, desta vez num mini-autocarro. A estrada é em terreno plano e essencialmente sem nada a registar, até chegarmos ao lago Issyk-Kol (o segundo maior lago alpino do mundo, a seguir ao lago Titicaca), rodeado de montanhas e com direito até a uma estância balnear, predilecta de cazaques abastados, e que alguns chamam de “Cancun da Ásia Central”. Ainda que só de passagem, sem direito a paragem, as semelhanças pareceram-me puramente coincidência…
A chuva continuava a cair de vez em quando, mas agora já nos começávamos a preocupar pois nos próximos dias tínhamos duas aventuras cujo sucesso dependia criticamente do bom tempo: um voo de helicóptero sobre o glaciar Inylchek (na cordilheira Tien Shan, na fronteira com a China) e um trek de 4 dias na cordilheira Terjshey Ala-Too, perto de Karakol. Será que S. Pedro nos ia ajudar?
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