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A praxe de Coimbra e tradição na cidade dos estudantes

A praxe de Coimbra e tradição na cidade dos estudantes

A praxe em Coimbra, em Portugal, marca a imagem de uma cidade e, todos aqueles que queiram visitar Coimbra e sentir esta cidade, devem perceber o que estão a ver, especialmente se chegam a Coimbra num dia da semana.
A praxe em Coimbra vê-se nas pequenas coisas. É a alma da cidade e da academia e, embora não se resuma ao traje, a maioria dos visitantes só verá os estudantes trajados, ou quanto muito, as tunas a tocar na cidade ou as festas académicas.

A praxe de Coimbra é a alma da cidade e todos aqueles que visitam esta universidade têm de perceber o que caracteriza a vida académica dos estudantes. Quem vai visitar Coimbra, em Portugal, deve saber um pouco mais sobre o que vai ver.

A CIDADE DOS ESTUDANTES E AS PRAXES DE COIMBRA

A parte mais impressionante da cidade é a Universidade de Coimbra, com vários edifícios centenários. Esta zona universitária é a Alta de Coimbra, rodeada pela parte velha da cidade, com ruas, ruelas, becos e escadarias, cheia de edifícios religiosos, casas antigas, repúblicas de estudantes e muitos estudantes. Esta área da cidade este repleta de momentos e vivências da praxe de Coimbra.

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O Código da Praxe e a hierarquia académica em Coimbra

Coimbra, a cidade dos estudantes, vive da tradição académica, baseada num Código da Praxe que determina a preservação das maiores tradições e eventos da academia de Coimbra e da praxe de Coimbra.

Vida académica nas noites longas das praxes de Coimbra
Vida académica nas noites longas das praxes de Coimbra

O código da praxe de Coimbra assenta numa hierarquia com base na existência de várias figuras perante a praxe e são estas figuras que preservam as tradições, cada uma delas com as suas funções. Os bichos, paraquedistas e caloiros são considerados “animais”, enquanto todos os outros são “doutores” em Coimbra. Isto significa um grau hierárquico de poder e reconhecimento na academia.

  • BICHO – Os estudantes do ensino secundário, ou equivalente, na praxe de Coimbra.
  • PARAQUEDISTA – Estudantes que foram colocados numa das Faculdades da Universidade de Coimbra e ainda não efectuaram a respectiva matrícula.
  • CALOIRO – Os estudantes do 1º ciclo de cursos na Universidade de Coimbra que estejam matriculados pela primeira vez e sem que antes se tenham matriculado em qualquer estabelecimento de ensino superior, português ou estrangeiro.
  • SEMI-PUTO – Estudantes dos cursos com quatro anos, que tenham duas matrículas.
  • PUTO – Estudantes dos cursos com quatro anos, que tenham três matrículas.
  • CANDEEIRO – Estudantes dos cursos com quatro anos, que tenham quatro matrículas.
  • CANDEEIRO GRELADO – Os estudantes que, preenchendo os requisitos da alínea anterior, ou um número superior de matrículas, tenham posto grelo em cerimónia de imposição de insígnias ou cortejo da latada da praxe de Coimbra, no início do ano lectivo.
  • CANDEEIRO FITADO – Os estudantes que, preenchendo os requisitos da alínea anterior, tenham posto fitas no dia do cortejo da Queima das Fitas da praxe de Coimbra.
  • VETERANO – Estudantes que estando matriculados no 2º ciclo, foram caloiros nacionais, tenham usado grelo durante três dias, seguidos ou não, e tenham um número de matrículas igual ou superior ao número total de anos do seu 1º e 2º ciclo.
  • DUX-VETERANORUM – O que, sendo veterano há mais de um ano, tiver sido eleito como tal em Conselho de Veteranos da praxe de Coimbra.
Praxe de Coimbra
Praxe de Coimbra

Eventos da vida académica coimbrã

Há vários eventos que enriquecem a vida académica e a praxe de Coimbra e que fazem parte da cultura da cidade de Coimbra.

1. O exercício da praxe de Coimbra

O exercício da praxe em Coimbra é a base da tradição académica de Coimbra. Qualquer aluno matriculado na Universidade de Coimbra pode fazer parte da praxe, mas pode também declarar-se anti praxe. Os alunos que se declarem anti praxe devem (mas não é obrigatório) renunciar a todos os eventos académicos, incluindo o uso do traje académico com a colocação das insígnias, o grelo e as fitas e a queima das fitas.

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Todos os anos há vários alunos que se declaram anti praxe e a academia de Coimbra vive bem com essa liberdade de escolha. Todos aqueles que aceitam a praxe em Coimbra fazem parte dela, consoante a sua hierarquia perante a praxe. Os caloiros em Coimbra são praxados pelos estudantes mais velhos, mas não há mistura de sexos. Homens só podem praxar homens, mulheres só podem praxar mulheres em Coimbra. Para se praxar em Coimbra tem que se estar trajado. Estudantes não trajados não podem exercer a praxe em Coimbra (a não ser que seja Dux-Veterano).

Alunos trajados em Coimbra
Alunos trajados em Coimbra

2. Trajar de capa e batina em Coimbra

O use do traje académico da Universidade de Coimbra foi obrigatório até 1910, embora as mulheres só o usem desde a década de 50. Desde 1910, o uso do traje em Coimbra é opcional, porém, obedece a algumas regras da praxe de Coimbra. Só no final do primeiro ano de Coimbra os alunos podem trajar. O primeiro dia em que os caloiros trajam é na noite da Serenata Monumental, o primeiro evento da Queima das Fitas de Coimbra e que abre as festas dos estudantes de Coimbra.

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O traje académico de Coimbra obedece a algumas regras que estão explicadas no Código da Praxe de Coimbra, mas são semelhantes para homens e mulheres, impedindo o uso de qualquer adereço nos dois sexos para além do fato, da capa e da batina. O fato é preto, a camisa branca, sapatos e gravata pretos. O único adereço que os estudantes podem usar com o traje de Coimbra é a pasta académica negra.

Exibindo o grelo na queima das fitas na praxe de Coimbra
Eu na queima das fitas na praxe de Coimbra
Exibindo o grelo na queima das fitas na praxe de Coimbra
Exibindo o grelo na queima das fitas na praxe de Coimbra

3. A imposição das Insígnias, o grelo e as fitas em Coimbra

A imposição das Insígnias é um dos eventos mais tradicionais em Coimbra e representa o progresso académico dos estudantes. Não basta trajar, um estudante de Coimbra vai acrescentando insígnias ao seu traje académico à medida que o seu percurso na universidade vai evoluindo.

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3.1. A imposição do grelo na praxe de Coimbra

O grelo é uma fita da cor do curso que o estudante coloca na sua pasta académica em Coimbra. É uma fita de malha com dois metros de comprimento e 3,5 cm de largura. Este grelo servia para os estudantes amarrarem os livros numa altura em que não existiam pastas ou não podiam ser usadas por estudantes não finalistas. O grelo ia assim impedir que se perdesse o material de estudo. Este grelo é colocado na pasta aquando da festa da Latada no terceiro ano.

3.2. A queima do grelo e a imposição das fitas na praxe de Coimbra

No final do terceiro ano, os estudantes de Coimbra queimam o grelo (daí vem a designação da festa Queima das Fitas). Na realidade, as fitas nunca são queimadas, a única coisa que se queima é o grelo, a fita comprida que se colocou no ano anterior. Com o grelo queimado é hora de colocar as fitas de finalistas que são abençoadas na Sé Nova de Coimbra. As fitas de finalista, oito e largas, são colocadas na pasta académica e devem ser assinadas pelos contactos dos alunos.

Há regras também para assinar as fitas na praxe em Coimbra e colocá-las na pasta académica, sendo que, entre outras, há fita para o namorado, pais, amigos, professores, etc. Essas fitas nunca são queimadas. Na Serenata Monumental de Coimbra, os alunos fitados ostentam as fitas nas escadas da Sé Velha ao som dos fados e baladas de Coimbra.

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3.3. Bênção das pastas da praxe de Coimbra

As fitas deixam de ser usadas quando o aluno faz a bênção das pastas, na sua ultima Queima da Fitas enquanto estudante de Coimbra. A bênção das pastas marca o final do percurso académico do aluno na praxe em Coimbra.

Queima das fitas na praxe de Coimbra
Queima das fitas na praxe de Coimbra

3.4. O rasganço do traje académico

Outro evento que marca o final do percurso do estudante na praxe de Coimbra é o rasganço do traje, o momento em que o aluno rasga o traje académico. No momento do rasganço, um dos amigos foge com a capa académica do estudante e este corre atrás da capa, nu, pela área da universidade, até o alcançar. Quando o estudante recupera a sua capa, envolve-se nela e a festa começa. O rasganço em Coimbra é feito pelos colegas e amigos e termina nas tascas da cidade, com festa que se prolonga pela noite dentro.

4. A Festa das Latas e o Cortejo da Latada em Coimbra

A festa das Latas em Coimbra é a festa que ocorre, geralmente em Outubro, para receber os caloiros que chegam à Universidade e faz parte da praxe em Coimbra. Estima-se que as festas já ocorram em Coimbra desde o século XIX mas na altura eram feitas no final do ano lectivo. Esta alteração para a recepção ao caloiro datará dos anos 50 do século XX. A Festa das Latas decorre durante uma semana, com concertos de tunas nos jardins, em recintos públicos e muitas festas todas as noites nos bares da cidade de Coimbra.

Festas da latada na Universidade e praxe de Coimbra
Festas da latada na Universidade e praxe de Coimbra

Na terça-feira da semana da Latada há o cortejo da Latada, quando os caloiros e caloiras são pintados com as cores do seu curso e são levados pelos seus “padrinhos” e “madrinhas” num desfile pela cidade com latas atadas às pernas, chocalhando por toda a cidade de Coimbra. Originalmente, os caloiros levavam tachos, pratos de metal e penicos pendurados ao corpo mas, na actualidade, a dificuldade de encontrar estes utensílios em metal tem levado a que sejam substituídos por latas de refrigerantes e cerveja vazias.

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Há centenas de caloiros nas ruas e o barulho é ensurdecedor. É assim desde há décadas e os lojistas da cidade e polícias há muito que não apreciam este evento da praxe de Coimbra. Nestes desfiles, durante o Estado Novo, os estudantes envergavam cartazes satíricos e críticos, algo que desagradava à PIDE e a tensão entre estudantes e autoridades intensificavam-se.

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Desde a Universidade de Coimbra, passando pela Praça da República até ao rio Mondego, os estudantes percorrem a cidade de Coimbra até chegar ao rio, local onde são baptizados pelos padrinhos (ou madrinhas). Aí, o caloiro recebe as águas do Mondego na cabeça, simulando uma situação de baptismo e é considerado, segundo a praxe de Coimbra, integrado como estudante na Universidade.

Cartaz da festa das latas e imposição das insígnias na praxe de Coimbra
Cartaz da festa das latas e imposição das insígnias na praxe de Coimbra
Cartaz da festa das latas e imposição das insígnias na praxe de Coimbra
Cartaz da festa das latas e imposição das insígnias na praxe de Coimbra

5. Colocação do Nabo na Latada de Coimbra

Uma das tradições académicas da praxe de Coimbra é colocar o nabo na pasta académica na festa da Latada do segundo ano dos doutores. Contudo, a colocação do nabo em Coimbra está também envolto em tradições. Diz a lenda que os estudantes de Coimbra como não tinham grande folga orçamental roubavam o nabo às mulheres no mercado local, bem cedo pela manhã. Ainda hoje, muitos estudantes de Coimbra continuam a ir roubar o nabo ao mercado local de Coimbra. A situação é bem alternativa, com as lavradoras agarradas aos cestos dos nabos, gritando e injuriando os estudantes. Algumas choram mesmo!

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Os estudantes, esses, saltam de lavradora em lavradora, em autênticas estratégias consertadas até conseguirem o seu nabo. Não fique triste pelas lavradoras. Hoje em dia, a Câmara Municipal de Coimbra paga aos produtores agrícolas todos os nabos roubados de forma a que os produtores locais não tenham prejuízo com os estudantes. A continuidade da tradição académica é assim preservada, tentado equilibrar-se os mundos em Coimbra. O nabo que os estudantes levam na pasta é dado a trincar aos caloiros durante o cortejo da Latada em Coimbra.

Festa das latas e imposição das insígnias na praxe de Coimbra
Festa das latas e imposição das insígnias na praxe de Coimbra

6. As trupes e a praxe de Coimbra

Uma das “figuras” de Praxe na Universidade de Coimbra são as trupes. As trupes são grupos de estudantes doutores que se reúnem a partir da meia noite com o objectivo de “patrulhar” as ruas da cidade e detectar se existem caloiros. As trupes formam-se, geralmente, na Porta Férrea da Universidade de Coimbra ou na entrada da Associação Académica de Coimbra. É assim que define o código da praxe de Coimbra. O objectivo principal dos caloiros é estudar e, como tal, não deve estar na rua depois da meia-noite.

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As trupes masculinas e femininas saem em busca dos caloiros e caloiras, respectivamente, correndo os doutores e doutoras atrás dos estudantes incautos. Quando os apanham, estes são sancionados, geralmente com uma martelada nas unhas ou um corte do cabelo. É difícil, na sua visita a Coimbra, ver as trupes já que não saem todos os dias e, quando o fazem, é geralmente de terça a quinta-feira.

Serenata monumental em Coimbra
Serenata monumental em Coimbra

7. Queima das Fitas em Coimbra

A Queima das Fitas é o evento principal da academia, da praxe de Coimbra e da festa dos estudantes. Nesta altura, geralmente na primeira ou segunda semana de Maio, caloiros tornam-se doutores, vestem o traje, os fados invadem a Sé Velha com a Serenata Monumental, novos e velhos estudantes juntam-se em jantares de curso por toda a cidade.

Serenata monumental em Coimbra
Serenata monumental em Coimbra

São 7 dias de festa, concertos, alegria e muita confraternização da Alta à Baixa de Coimbra. Há festivais de tunas, fados, concertos de música popular e até moderna no parque da Queima das Fitas de Coimbra. Nesta semana, as aulas são suspensas em Coimbra porque os alunos não apareciam nas faculdades. Na terça-feira, os estudantes saem com carros alegóricos de cada curso e desfilam pela cidade e esse é um momento alto da praxe de Coimbra.

Cartaz da queima das Fitas na praxe de Coimbra
Cartaz da queima das Fitas na praxe de Coimbra

8. As repúblicas de Coimbra e a praxe

As repúblicas de Coimbra é outra face visível da sua tradição da praxe de Coimbra. São residências de estudantes, masculinas ou femininas, onde os estudantes passam parte da sua vida académica. São locais de tertúlias, conversas e muitas festas.

Cidade de Coimbra
Cidade de Coimbra

9. As tunas da Universidade de Coimbra e a praxe

As tunas são outra das faces da vida da academia e da praxe em Coimbra. O objectivo é criar grupos de cantares, com músicas académicas, em que os jovens que chegam a Coimbra e têm dotes musicais se podem juntar. Há tunas masculinas e femininas em Coimbra, mas não há tunas mistas. As tunas têm um papel fundamental da preservação e divulgação da música académica e da praxe.

Serenata monumental na Sé de Coimbra
Serenata monumental na Sé de Coimbra

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Carla Mota
Geógrafa com uma enorme paixão pelas viagens e pelo mundo. Desde muito cedo que as viagens de exploração fazem parte da sua vida. A busca do conhecimento do mundo leva-a em direcção a culturas perdidas e ameaçadas, tentando percebe-las. Hoje é também líder de viagens de aventura na Nomad.
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